sábado, 29 de maio de 2010

Primeiras anedotas

Exatos 3 meses e 20 dias de estágio foi o tempo de gestação dessa postagem.  Vou puxar da memória os primeiros momentos.  A primeira impressão foi ter caído de pára-quedas na Ilha de Lost.  Vamos lá: Vôo Viracopos-Fortaleza, de lá um busão destino 237,1Km  oeste de Fortaleza, num período de 7h, parando em tudo que é beco  por uma estrada pista simples em que só se via mato, vilarejos  e bolas de feno girando na frente da pista.  Praia, até então, nem sinal. Chegando em  Almofala, o ponto final do bumba, faminta, cansada, doida pra chafurdar no mar,  fui recebida na porta do ônibus por um homenzinho com abadá amarelo escrito “Moto Táxi”, que repetia  rápida e enroladamente:  "Porréto Tamar? Porréto Tamar?" Ele tava quase subindo o primeiro degrau do ônibus pra me tirar de lá de dentro. Ok. Foi combinado que um veículo estaria lá pra receber os estagiários.  Olhei pra ele, olhei pra moto e lembrei  de um recibo de  multa de 150 reais por excesso de bagagem, afinal passaria 6 meses num local isolado morando com índios.  O nome dele é Hélry, o melhor Moto-Táxi da região, especializado em dirigir a moto na areia fofa sem nos deixar  cair de lado. Por isso incumbiram-no de levar “a menina do Projeto”.  Ele foi chamar outra moto pra minha bagagem.  2 reais pra cada moto,  por uma estrada  de areia  “15-min-a-pé”  pra chegar na porta do Projeto.  A galera aqui anda de 3, 4, até 5 se 2 forem crianças numa moto sem capacete, naturalmente.   
5% da população tem RG. 2% sabe escrever.   0,003% tem habilitação pra dirigir.  Os jegues foram substituídos por motos. O governo Lula deu uma garibada na situação do nordeste, sim.  Agora temos grupos de jegues de rua revirando os lixos.  O que eles não comem é jogado no mangue e ateado fogo, ou queimam nos próprios quintais de suas casas. Nem sinal de aterro sanitário.
Chegando no meu destino, achei tudo lindo. O calor-sauna-natural do nordeste, a areia pelando que afundava até o tornozelo. Pra chegar no meu quarto tinha que passar pelo Centro de Visitantes.  Ajeitado, bem decorado com motivo de tartaruga, tanques com belezinhas nadando pra lá e pra cá (coitadas), xuxu.  
Entrando no alojamento, a Executora de Base (cargo imediatamente abaixo de Coordenadora Técnica, antes da autoridade máxima, o Coordenador Regional)  nos recebeu e deu as primeiras coordenadas. Eram 16h e não tinha onde comer, mas ali pra frente, pela  praia,  tinha a Barraca da Gringa.  Se ela fosse com a nossa cara podia levantar da rede e fritar um peixe.  Nossa  chefe  perguntou o que a gente queria fazer naquela hora, atravessei:  Quero ver o mar!!  (na minha cabeça: pelamordedeus   me mostra a parte boa disso tudo!)
A praia de Almofala é maravilhosa.  Desertinha...  A gringa tratou a gente bem e fritou o tal do peixe.  A água do mar é mais quente que a função inverno do chuveiro. Como não gosto de passar frio, me amarrei!  Até perdoei a quantidade de Sargassum grudada no cabelo, afinal é uma área de alimentação de tartarugas, e a espécie mais abundante do local (Chelonia mydas) é vegetariana. De dentro do mar dava pra ver 2 crianças no rasinho agachando pra fazer cocô. Tudo bem.
Pra dormir, tem que usar aqueles véus contra muriçocas. Na primeira noite descobri que  o véu é contra: mosquitos, sapos, baratas, morcegos, ratos, cobras, aranhas caranguejeiras,  formigas gigantes voadoras, preás, e por aí vai. Tinha começado o teste de resistência psicológica.
Pelo menos dá pra ouvir o mar de dentro do quarto.

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