sábado, 29 de maio de 2010

Monitoramento marinho - Base Almofala


O Ceará é uma área de alimentação de tartarugas marinhas.  Existem somente 3 bases com essa característica no Brasil: Floripa, Ubatuba e Ceará. Em Floripa e Ubatuba, o forte é a parte veterinária  e o atendimento aos turistas no Centro de Visitantes.  Estagiário dificilmente vai pro campo e tem contato com pescador, só quando tem que ajudar alguém que é contratado pra isso. Em áreas de desova, você só tem contato com as fêmes que sobem pra areia durante a noite pra depositarem seus ovos.  Aqui  no Ceará o buraco é mais embaixo.  Quero dizer, mais em cima! Diga-se de passagem, o trampo é irado! Contato total com a comunidade e com os bichos no ambiente natural. Além de ser o fim do mundo,  a equipe é pequena.  A verba é curta. Estagiário faz de tudo, até ajudar os chefes a passar os dados sagrados quando necessário.  O bom é que a gente acaba  compreendendo  todas as partes do processo TAMAR. 
 A parte melhor do trabalho é sem dúvidas ir pro campo.  Apesar do cansaço físico, o contato com a natureza é muito compensador. O melhor de tudo, o que mais me encanta  é o elemento surpresa do trabalho. Você nunca sabe se vai vir uma tartaruga, que espécie, que tamanho, que tipo de animal vai estar no curral... será que vai dar uma marezada  de Xaréu?  Garatimbó? Garajuba? Sardinhas? Se a canoa não virar, olê olê olá! Essa curiosidade diária não deixa a gente morrer de tédio, de jeito nenhum! Da natureza pode-se esperar de tudo!  Às vezes encalham uns defuntos na beira da praia: tartarugas, golfinhos, humanos... As tartarugas e golfinhos a gente enterra.  Faz parte da brincadeira.
Vou pros embarques com um Kit de campo composto por:  máscara/snorkel/nadadeiras, pra dar aquela mergulhada no curral e ver se tem alguma tartaruga viva ou algum casco-prova-do-crime no fundo.  Essa parte é legal,  exceto quando me deparo com raias gigantes, tubarões e rêmoras (essas ficam te seguindo embaixo dágua pra grudarem em você!). Nesse caso volto pra canoa mais rápido que o papa-léguas!  Fazer isso todo dia faz a gente começar a dominar a arte. Tô pensando em montar um curral... trabalhar 5 horas por dia e ficar esticada numa rede na beira da praia pelas próximas  19 horas do dia.  Isso é o que eu chamo de encontrar o sentido da vida!

Voltando ao trabalho, o resto do Kit a gente usa quando volta pro seco com tartaruga. GPS (marcar o ponto de encalhe das encontradas mortas pelo caminho, eventualmente), câmera (tudo é fotografado), alicate especialmente desenvolvido para marcação das bichas (se você perder ou estragar é um estagiário morto),  marcas de aço inoxidável (piercing com número do RG delas),  alicate de bico (retirar epibiontes nojentinhos), pinça, Gilette e tubos corning  (coleta de tecido pra exames genéticos), cordinha e balança (pesar é importante),  fita métrica (biometria), álcool e iodo pra marcação e coleta de tecido.  Menos de 30cm de comprimento, não marca. Chelonia  com menos de 1 metro, não coleta tecido.  Tudo com muita areia em todas as partes possíveis do corpo, seu e da tartaruga.

Chegando do embarque, os pescadores vão embora com seus peixes e a gente fica sozinho  na beira da praia fazendo os procedimentos com as tartarugas. Já cheguei a ficar sozinha com 4 belezinhas me esperando.  Plastrão virado pra cima pra elas não fugirem. Depois de tudo, fotos.  Solto de volta pro mar rezando pra nenhum pescador famigerado levá-las pra panela e carregar as marcas numa correntinha no pescoço.  Volto 50min de caminhada no sol, carregando vários peixes que a gente ganha cada vez que embarca... e que se você disser que não quer é muuuita desfeita. Tudo isso com muita disposição pra permanecer em pé no Centro de Visitantes.  Ou ir pra alguma escola a 1h de bike  cumprir os módulos de Educação Ambiental.  Em torno de 15 escolas pra cumprir no semestre. As mais distantes  primeiro, pois estão com módulos atrasados.

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