Quando pergunto pras crianças das escolas da região: o que o Projeto TAMAR faz? Todas respondem em coro: cuidá das tátárúúúgas!!
Na Base Almofala a rotina é a seguinte: toque de levantar às 6h30, pois temos que estar às 7h na área da de tratamento cortando sardinhas pros animais do Centro e fazendo papinha pras debilitadas que habitam a quarentena. Isso com um enxame de 5.000 moscas em volta de você e dos peixes, e 4.700 pernilongos petrejando a porção inferior do corpo, picando através da roupa. Estagiário só se livra dessa função quando tem que ir pro campo... ahhh... a melhor parte! Caminhar 50 minutos sob o sol escaldante pra chegar na Boca da Barra, onde tem 2 pesqueiras e 2 currais no mar. Fazemos monitoramento marinho, que consiste em embarcar com os pescadores e mergulhar no curral com máscara e snorkel pra ver se tem alguma tartaruga por lá. Um desses currais é longe, fica a 1h30 de canoa da costa, isso quando o vento tá bom, senão demora mais! Em média 5h embarcada, não importa se tá chuva, sol, tempestade. A vantagem é que quanto mais fundo, mais clara a água. As areias do Ceará deixam a água esbranquiçada em certos períodos. A plataforma é rasinha rasinha rasinha... 1h30 de canoa rumo ao horizonte e ainda dá pra ver o fundo, dá uns 5m de profundidade só. Isso permite que os pescadores construam estruturas de arame, cipó, cordas e madeira, de funcionamento complexo, pra armadilhar os peixes de modo que eles possam passar a rede lá dentro. O conhecimento da arte curral-de-pesca é passado de pai pra filho, e tem um mestre especializado na região em te dizer o ponto exato no mar que eles devem montar o curral, caso contrário não se pega nenhum peixe, muito menos tartarugas! Dá pra imaginar? Sabedoria popular!
Bom... chego do campo NAQUELE estado. Melada de água do mar e baba de peixe, cheirando a peixe com tartaruga, suando que nem um camelo, morrendo de sede, fome e vontade de pular numa piscina fresca. Teoricamente tem um horário de almoço que vai das 11h30 às 13h30, período em que as portas do Centro de Visitantes são fechadas em dias de semana. Acontece que a gente só pega esse horário de almoço se o campo é cedo, tipo 6h30 da manhã. Se vc chegar às 13h, só tem 30min pra tomar banho, comer e prestar continência no Centro. Na maioria dos embarques a gente chega depois do horário técnico de almoço. O tempo de tomar banho e engolir a comida: diga-se de passagem, um prato de estivador!! Os estagiários ficam de plantão pra receber turistas e responder às perguntas clássicas: Tá vivo? (pros animais no formol). Quando vcs vão soltar elas? (resposta: não serão soltas, estão aí pra comovê-los, quero dizer, pra educação ambiental). Posso entregar meu currículo pra você? Como faz pra trabalhar aí? Tira uma foto comigo? Olha amor, temos uma foto com a bióloga do Projeto. (Quem vê pensa!) Bate uma foto minha? (por essa eu devia cobrar). Tartaruga menstrua? Vocês ganham pra estar aqui? ( é vo-lun-tá-rio) Você é de onde? Sotaque diferente...
Os mais “bicho-grilo politizados” chegam intimando: Esse Projeto é uma hipocrisia! Patrocinado por uma Petrolífera! (aposto que veio de carro!)
Fora a turma que chega bêbada da praia querendo entrar nos tanques, xavecar os estagiários, levar as peças do museu pra dar um rolê, tem de tudo. Até criança dando pedra pras tartarugas comerem. Um verdadeiro espetáculo da biologia moderna!
Vira e mexe chegam uns busões lotados, querendo entrar naquele momento, pedindo alguém pra explicar passo a passo do Centro. Prioridade é do estagiário de atenter. Então, haja garganta!
Pensem comigo... quando tem maior fluxo de turistas na praia? Sábado, Domingo e feriados. Estagiário não tem folga, afinal, são "só" 6 meses e temos que participar intensamente de tudo.
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